Argentina Zera Impostos de Exportação e Ameaça Competitividade da Soja Brasileira na China

Argentina Zera Impostos de Exportação e Ameaça Competitividade da Soja Brasileira na China

A Argentina tomou nesta semana uma decisão estratégica que deve transformar o mercado mundial de soja, especialmente em relação às exportações para a China. O governo argentino anunciou que zerará, temporariamente, os impostos sobre exportações de grãos e derivados — conhecidos localmente como retenciones. A medida, válida a partir desta terça-feira (23) e com prazo até 31 de outubro, já está impactando os preços no mercado agrícola global e traz uma ameaça à liderança do Brasil nas vendas de soja ao gigante asiático.

Impacto na Competitividade Brasileira

Com a suspensão dos impostos, a soja argentina tornou-se significativamente mais barata no mercado internacional. Atualmente, o grão argentino está cerca de 60 centavos de dólar por bushel mais competitivo que o brasileiro. Segundo a consultoria Markestrat, essa diferença deve favorecer as exportações argentinas, especialmente porque a China ainda precisa suprir um volume estimado de 13 milhões de toneladas de soja entre novembro de 2025 e janeiro de 2026.

No entanto, enquanto a soja brasileira é reconhecida por oferecer melhor remuneração, o preço mais atrativo da soja argentina deve levar os chineses a priorizar esse mercado nos próximos negócios. A Argentina já tem disponível cerca de 20 milhões de toneladas em estoques da safra passada, o que potencializa sua capacidade de atender à alta demanda chinesa nas próximas semanas.

“O governo argentino, liderado por Milei, buscou essa ação como parte de uma estratégia emergencial para aumentar as reservas de dólares no país, mirando arrecadar cerca de 7 bilhões de dólares com as exportações agrícolas”, explica José Carlos de Lima, sócio do Markestrat Group. A medida ocorre em um contexto de severa crise econômica e pressão de opositores sobre a gestão da política econômica.

Impacto Regional: Avanços e Recua da Soja

Dados recentes mostram que, entre junho e a segunda semana de setembro de 2025, o volume de carregamentos de soja comprados pela China foi praticamente estável em relação ao mesmo período do ano anterior. No entanto, quando analisada a origem do grão, evidencia-se um avanço impressionante da Argentina no mercado chinês:

  • Brasil: O país embarcou 455 carregamentos, registrando um crescimento de 25,7% (um adicional de 5,6 milhões de toneladas) em comparação a 2024;
  • Argentina: Os embarques argentinos saltaram de 39 para 112 carregamentos, um impressionante crescimento de 187% (equivalente a 4,4 milhões de toneladas);
  • Estados Unidos: As exportações americanas recuaram de 207 para 168 carregamentos, uma queda de 18,8% (redução de 2,3 milhões de toneladas).

Esse cenário reflete a competitividade crescente da Argentina, enquanto o Brasil e os Estados Unidos enfrentam maior dificuldade em manter ou avançar seus volumes exportados para a China.

Repercussões no Mercado Global

O anúncio argentino já causou um forte ajuste nos mercados futuros de grãos e derivados negociados na Bolsa de Chicago (CBOT), que registraram quedas significativas:

  • Soja para novembro: recuou 1,50%, para US$ 10,09 por bushel;
  • Milho para dezembro: caiu 0,68%, para US$ 4,20 por bushel;
  • Trigo para dezembro: teve queda de 1,99%, fechando a US$ 5,10 por bushel.

Os derivados da soja também sentiram o impacto: o farelo de soja para dezembro caiu 1,36%, chegando a US$ 2,80 por tonelada curta, enquanto o óleo de soja recuou 1,79%, cotado a 4,97 centavos de dólar por libra-peso. Esse cenário pressiona negativamente os prêmios pagos pela soja brasileira no mercado internacional.

Oportunidades e Desafios para o Brasil

Apesar do avanço argentino, o Brasil ainda lidera como maior fornecedor de soja para a China, em grande parte devido à sua capacidade produtiva elevada e à relação comercial sólida com o mercado asiático. No entanto, a decisão argentina deve intensificar a concorrência, exigindo medidas estratégicas por parte do governo e do setor agropecuário brasileiro.

Para especialistas, o Brasil precisa manter sua vantagem competitiva por meio de estratégias logísticas, manutenção de alta produtividade e negociações comerciais sólidas. Além disso, é necessário maior atenção à diplomacia econômica, especialmente em um cenário global marcado por tensões geopolíticas, como a guerra comercial entre Estados Unidos e China.

Por outro lado, há o risco de impacto financeiro para os produtores brasileiros, que enfrentam redução nas margens de lucro devido ao cenário de preços em queda. A curto prazo, o mercado seguirá pressionado pela abundância de oferta argentina, mas especialistas apontam que a relação custo-benefício da soja brasileira continuará sendo um trunfo no médio e longo prazo.

Conclusão

A decisão do governo argentino de zerar os impostos para exportação de soja faz parte de uma estratégia emergencial para atrair dólares ao país, mas também reposiciona a Argentina como um importante competidor no mercado internacional. Enquanto a economia do país vizinho tenta se estabilizar, o Brasil precisa reforçar sua liderança no setor por meio de ações que garantam a competitividade e a valorização no mercado global.

Para os próximos meses, o cenário deve permanecer desafiador, com todos os olhos voltados para o comportamento do mercado chinês, maior consumidor mundial de soja. A resposta brasileira a esse novo desafio será determinante não apenas para a safra atual, mas para o futuro da participação brasileira no comércio agrícola internacional.

Fonte: Agro Estadão