Conflito no Oriente Médio eleva preocupações sobre custos e logística no agronegócio brasileiro

Conflito no Oriente Médio eleva preocupações sobre custos e logística no agronegócio brasileiro

A intensificação dos confrontos entre Estados Unidos, Israel e Irã tem gerado impacto direto nos mercados internacionais e levantado preocupações no agronegócio brasileiro. Embora o epicentro do conflito esteja a milhares de quilômetros das lavouras brasileiras, as consequências econômicas já afetam variáveis importantes para o setor, como custos de energia, transporte e importação de insumos.

Preço de petróleo sobe com risco no Estreito de Ormuz

O agravamento da tensão geopolítica no Oriente Médio elevou substancialmente o preço do petróleo nos mercados globais. Na abertura dos negócios, o barril do tipo Brent registrou alta de até 13%, chegando a cerca de US$ 82, enquanto o WTI também teve valorização expressiva. Essa reação é atribuída ao bloqueio parcial do Estreito de Ormuz, corredor marítimo que responde por cerca de 20% do transporte de petróleo no mundo. O fechamento da rota levou navios a desviarem pelo Cabo da Boa Esperança, aumentando o tempo de travessia e os custos de frete.

Especialistas alertam que, se a instabilidade persistir ou se estender a outras áreas de produção de energia, o preço do barril pode ultrapassar os US$ 100, pressionando ainda mais as cadeias de custo ligadas a combustíveis e logística.

Impacto para o agro brasileiro

Embora o Irã represente apenas uma pequena fatia nas exportações totais do Brasil — cerca de 0,84% em 2025 —, o agronegócio brasileiro mantém forte foco nas vendas de produtos agrícolas àquela região. Dados do sistema ComexStat mostram que, no ano passado, a maior parte das exportações brasileiras para o Irã foram de milho (67,9%) e soja (19,3%), seguidos por açúcares, melaços e farelo de soja. Isso reforça a importância da região como mercado consumidor desses produtos.

Por outro lado, cerca de 79% das importações brasileiras vindas do Irã referem-se a adubos e fertilizantes, insumos indispensáveis para a produção agrícola. Com o Brasil dependendo de cerca de 80% dos fertilizantes utilizados no país provenientes do exterior, a instabilidade geopolítica amplia a vulnerabilidade da cadeia produtiva, elevando o risco de elevação de custos ou de interrupção no abastecimento.

Logística mais cara e complexa

O deslocamento de navios por rotas alternativas, como contornar o continente africano, aumenta o tempo de viagem e o custo do frete. Para o agronegócio, isso significa maiores despesas de transporte e prazos mais longos para o escoamento da produção, o que pode reduzir a competitividade nos mercados internacionais.

O analista da Safras & Mercado, Fernando Iglesias, aponta que, mesmo com o aumento dos custos de logística, os produtos brasileiros devem continuar chegando aos mercados consumidores, ainda que com preços mais altos. “A logística pode ficar mais cara com o fechamento do Estreito de Ormuz, mas o produto brasileiro tende a chegar ao seu destino. Só vai ficar mais caro para que isso aconteça”, afirmou Iglesias.

Efeitos para setor de carnes e outros mercados

A participação do Oriente Médio nas exportações brasileiras é mais ampla do que apenas o Irã. Em 2025, a região como um todo absorveu cerca de US$ 16,1 bilhões em produtos brasileiros, entre carnes de aves, milho, açúcar, carne bovina e soja. Setores como o de carnes podem ser afetados indiretamente pela alta nos custos de transporte e energia, mais do que pela queda direta da demanda.

Escalada do conflito

O conflito se intensificou depois de ataques que resultaram na morte de altos dirigentes iranianos e na posterior retaliação do Irã contra posições israelenses. A situação mobilizou também países europeus, que embora tenham declarado intenção de não participar diretamente dos ataques, reforçam que estão preparados para medidas defensivas.

A contínua instabilidade na região — combinada com riscos ao transporte marítimo e ao fornecimento de energia — reforça a importância estratégica de diversificar fontes de insumos e fortalecer mecanismos internos de produção e logística, de modo a reduzir a exposição do agronegócio brasileiro a acontecimentos internacionais que escapam ao controle dos produtores e das autoridades nacionais.

Fonte: Agro Estadão