Inadimplência no agronegócio dobra em três anos e setor enfrenta endividamento recorde

Inadimplência no agronegócio dobra em três anos e setor enfrenta endividamento recorde

A inadimplência no agronegócio brasileiro vem aumentando de maneira preocupante nos últimos anos, refletindo os desafios impostos pela conjuntura econômica e climática. Dados divulgados neste dia 15 de setembro, durante o Fórum de Crédito e Endividamento Rural, promovido pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja-MT), mostram que o índice de inadimplência das operações de crédito rural entre pessoas físicas passou de 2% em 2021/22 para 4% em 2024/25, revelando um crescimento expressivo no endividamento dos produtores.

Entre pessoas físicas e bancos, que concentram de 80% a 85% do crédito rural, o índice de inadimplência chega a 5,9%, com renegociações atingindo 15,8% da carteira — números que evidenciam os obstáculos para o pagamento das dívidas no campo. Além disso, o agronegócio enfrenta um endividamento estimado em bilhões de reais, gerando preocupações sobre a sustentabilidade financeira do setor.

Entre pessoas jurídicas, o cenário é mais estável, com uma taxa de inadimplência de 0,5% e renegociações de 6,5%, enquanto nas cooperativas de crédito, protegidas pelo Programa de Garantia da Atividade Agropecuária (Proagro), o atraso em pagamentos atinge apenas 0,4%. Já nas instituições financeiras públicas, como o Banco do Brasil, a inadimplência é maior: 6,3%, com renegociações de 16,4%.

Causas do endividamento no campo

Especialistas apontam que a crise é fruto de uma combinação de fatores. De acordo com o economista Fábio Silveira, da MacroSector Consultores, a rentabilidade agrícola começou a ser comprimida em 2022, quando o setor passou a enfrentar o aumento dos custos de insumos, como fertilizantes, e a escalada da taxa básica de juros, que encareceu o crédito agrícola.

A guerra na Ucrânia e crises climáticas, como enchentes no Rio Grande do Sul e secas no Centro-Oeste, agravaram ainda mais a situação. No caso da soja, por exemplo, o custo de fertilizantes subiu significativamente, com a relação de troca saltando de 19 para 24 sacas por tonelada de fertilizante, um aumento de 22%, dificultando a viabilidade financeira para muitos produtores.

“O cenário é de crise. Não há outra palavra para descrever os impactos enfrentados pelos produtores. Os preços das commodities caíram, enquanto a alta nos custos e os choques climáticos pressionaram as margens de lucro”, afirmou Silveira.

Lucas Costa Beber, presidente da Aprosoja-MT, destacou a complexidade do problema. “Estamos enfrentando um conjunto de fatores: inflação em insumos, queda do preço das commodities e eventos climáticos extremos. Essa combinação fragilizou financeiramente o setor.”

Soluções para o endividamento rural

Durante o fórum, especialistas apresentaram possíveis saídas para mitigar o impacto do endividamento e evitar um colapso no setor. Entre as propostas levantadas, estão:

  1. Ampliação de subsídios governamentais:
    Segundo o economista Fábio Silveira, o Brasil destina apenas 1,5% da receita agrícola para subsídios, enquanto países como os Estados Unidos dedicam 11%. Ele defende que o governo amplie seu apoio financeiro ao setor, que é vital para a economia nacional. “O agro é estratégico, não podemos hesitar em buscar mais financiamento público”, ressaltou.
  2. Gestão mais eficiente nas propriedades rurais:
    Ângelo Ozelame, fundador da Lucro Rural, destacou a necessidade de os produtores adotarem uma gestão mais cautelosa e baseada em dados. Ele apontou que, durante os anos de margens elevadas, muitos agricultores assumiram dívidas pesadas para expansão, ignorando os riscos de oscilações de preços e aumento nos custos. “É preciso retomar decisões baseadas no fluxo de caixa e adotar uma gestão financeira mais racional”, disse.
  3. Incentivo à mediação extrajudicial:
    O desembargador Mário Kono, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, defendeu que a renegociação de dívidas seja feita de forma consensual entre produtores, instituições financeiras e tradings. Ele destacou que litígios judiciais prolongados não atendem à urgência do setor e que a mediação é o caminho para garantir a sustentabilidade econômica sem paralisar o agronegócio.

O impacto da crise para o futuro do agronegócio

O agronegócio brasileiro, que é responsável por mais de 25% do Produto Interno Bruto (PIB) e grande parte das exportações nacionais, enfrenta um momento crítico. A crise do endividamento ameaça pequenos, médios e grandes produtores, dificultando investimentos futuros e limitando a capacidade do setor de manter seu ritmo de crescimento.

Apesar das dificuldades, especialistas acreditam que, com o apoio governamental e a adoção de práticas de gestão mais eficientes, é possível reverter o cenário. Medidas como subsídios mais amplos, renegociações inteligentes e atenção aos custos podem garantir a retomada da sustentabilidade econômica no campo.

O momento, contudo, exige um esforço conjunto entre governo, produtores e instituições financeiras para minimizar os impactos e evitar que a inadimplência siga comprometendo um dos principais motores econômicos do país.

Fonte: Agro Estadão