Inovação no campo redefine o agro brasileiro ao longo de 25 anos

Inovação no campo redefine o agro brasileiro ao longo de 25 anos

Nas últimas duas décadas e meia, a agropecuária brasileira passou por uma transformação profunda, deixando para trás o modelo baseado na expansão de área e na baixa intensidade tecnológica. O setor incorporou ciência, dados e gestão avançada, consolidando-se como um dos pilares mais inovadores da economia nacional. Mais do que avanços pontuais, o período foi marcado por mudanças estruturais que redefiniram a forma de produzir, competir e responder às exigências ambientais e de mercado.

Os ganhos de produtividade refletem esse processo. Em cerca de 25 anos, a produção por área cresceu aproximadamente 60% na soja, 83% no milho, 103% no café, 200% no arroz e 80% no feijão. Na pecuária leiteira, a produção nacional passou de 23 bilhões de litros em 2000 para quase 36 bilhões em 2024. Já na carne bovina, dados do Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) indicam que o Brasil saiu de 3,9 milhões de toneladas em 2000 para 12,35 milhões de toneladas, tornando-se o maior produtor e exportador mundial, à frente dos Estados Unidos.

Um dos marcos dessa evolução foi a disseminação da agricultura de precisão, a partir dos anos 2000. O uso de GPS, mapas de produtividade, sensores e aplicação localizada de insumos substituiu o manejo uniforme das lavouras por uma abordagem baseada na variabilidade do solo e das plantas. Com o avanço das imagens de satélite, drones, internet das coisas (IoT) e plataformas digitais, o dado passou a ser um insumo estratégico, resultando em redução de custos, uso mais eficiente de fertilizantes e defensivos e ganhos consistentes de produtividade.

Paralelamente, a biotecnologia ganhou escala no país. O melhoramento genético acelerado, o uso de cultivares transgênicas e, mais recentemente, as técnicas de edição gênica ampliaram a estabilidade produtiva e reduziram riscos climáticos e fitossanitários. Na pecuária, a genômica encurtou ciclos de seleção, aumentou a eficiência alimentar e impulsionou avanços em rastreabilidade e bem-estar animal, aspectos cada vez mais valorizados nos mercados internacionais.

Outro eixo central dessa transformação foi a consolidação de sistemas produtivos integrados, como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta (iLPF). Estima-se que o Brasil tenha cerca de 20 milhões de hectares sob esse modelo, com predominância da integração lavoura-pecuária. Esses sistemas têm contribuído para a recuperação de áreas degradadas, diversificação de renda e redução das emissões por unidade produzida, tornando-se uma resposta prática às demandas por sustentabilidade e competitividade. Os sistemas agroflorestais também avançaram, especialmente em cadeias de maior valor agregado.

O manejo conservacionista do solo consolidou-se como outro pilar do desenvolvimento agropecuário. Práticas como o plantio direto, o uso de plantas de cobertura e a rotação de culturas reduziram a erosão, aumentaram a retenção de água e ampliaram o estoque de carbono no solo, posicionando o Brasil de forma relevante no debate global sobre agricultura de baixo carbono.

Nos últimos anos, os bioinsumos passaram a ocupar espaço central na estratégia produtiva. Inoculantes, agentes de controle biológico e biofertilizantes cresceram de forma acelerada, impulsionados por avanços técnicos e por exigências regulatórias e de mercado. O país tornou-se referência global nesse segmento, que apresenta crescimento anual de dois dígitos e sinaliza uma mudança estrutural: a sustentabilidade passou a integrar a lógica econômica da produção.

A mecanização agrícola também entrou em uma nova fase, marcada por máquinas conectadas, pulverização seletiva e sistemas semi-autônomos. Além de aumentar a precisão das operações, essas tecnologias ajudam a enfrentar a escassez de mão de obra qualificada e reduzem desperdícios, elevando a eficiência do setor.

Mais recentemente, a incorporação da inteligência artificial e da análise de grandes volumes de dados consolidou o agro como um setor intensivo em conhecimento. Modelos preditivos de safra, diagnóstico automatizado de pragas e plataformas integradas de gestão passaram a orientar decisões técnicas e financeiras, reduzindo incertezas em um cenário cada vez mais desafiador do ponto de vista climático e econômico.

O balanço desses 25 anos indica uma mudança clara de paradigma. A inovação no agro brasileiro deixou de ser incremental e tornou-se sistêmica. Produzir mais segue sendo essencial, mas já não é suficiente. O desafio agora é produzir melhor, com eficiência, rastreabilidade, menor impacto ambiental e maior valor agregado.

O próximo ciclo de desenvolvimento dependerá menos da criação de novas tecnologias e mais da capacidade de ampliar sua adoção, integrar políticas públicas, ciência e mercado, e garantir que a inovação alcance também médios e pequenos produtores. É nesse ponto que se definirá o futuro do agronegócio brasileiro.

Fonte: Agro Estadão