Juros elevados e renegociações pressionam crédito rural e agravam endividamento de produtores

Juros elevados e renegociações pressionam crédito rural e agravam endividamento de produtores

Após anos marcados por perdas climáticas recorrentes, produtores rurais brasileiros enfrentam um novo e crescente desafio: o custo financeiro do crédito. Levantamento da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) indica que o aumento dos juros e a expansão das renegociações com recursos livres têm elevado de forma acelerada o nível de estresse financeiro no campo, tornando a atividade economicamente inviável para parte dos agricultores.

Dados do Banco Central compilados pela entidade mostram que a carteira de crédito rural no País somava R$ 812,7 bilhões em novembro de 2025. Desse total, R$ 123,6 bilhões já são classificados como “carteira estressada”, categoria que inclui contratos inadimplentes, em atraso, prorrogados ou renegociados. O crescimento dessa parcela chama atenção: enquanto o volume total de crédito avançou pouco mais de 12% em cerca de um ano e meio, os contratos em situação regular cresceram menos de 6%. No mesmo período, o montante sob estresse aumentou mais de 70%, com concentração do agravamento ao longo de 2025.

Segundo a Farsul, o fenômeno não está diretamente ligado a uma quebra generalizada de safra. Em 2025, o Brasil colheu volumes recordes de grãos, o que reforça a avaliação de que o principal fator por trás da inadimplência atual é financeiro. O economista-chefe da entidade, Antônio da Luz, aponta que o nível elevado das taxas de juros, aliado ao desequilíbrio fiscal e ao encarecimento do crédito, tem corroído a rentabilidade do produtor. De acordo com ele, muitos agricultores destinam hoje entre 6% e 8% da receita apenas ao pagamento de juros, enquanto a margem líquida do negócio não passa de 2% ou 3%. “Na prática, o produtor paga três reais em juros para cada real de lucro”, resume.

As renegociações de dívidas, que deveriam aliviar a pressão sobre o caixa, têm ocorrido majoritariamente fora das linhas subsidiadas. Em 2024, cerca de 36 mil contratos foram renegociados com base em medidas do Conselho Monetário Nacional e do governo federal, totalizando R$ 28,2 bilhões. No entanto, apenas uma parcela inferior a 20% utilizou recursos públicos com taxas equalizadas. A maior parte foi reestruturada com recursos livres, sujeitos a juros de mercado, significativamente mais elevados.

Especialistas alertam que, mesmo com eventual redução da taxa básica de juros nos próximos anos, o cenário tende a permanecer desafiador. Isso porque os efeitos da política monetária sobre o crédito rural costumam ocorrer com defasagem, e as taxas cobradas nas renegociações atuais continuam acima da média histórica.

Além do custo financeiro, produtores relatam dificuldades relacionadas à transparência dos contratos. O advogado Mario Vainer, que atua na defesa de agricultores familiares no Rio Grande do Sul, afirma que mudanças recentes na legislação ampliaram o espaço para juros mais elevados nas renegociações. Segundo ele, práticas que antes eram exceção passaram a se tornar comuns, especialmente em contratos firmados com cooperativas e instituições financeiras privadas.

Vainer relata casos de produtores enquadrados em programas de agricultura familiar que, após sucessivas frustrações de safra, viram dívidas originalmente contraídas com juros subsidiados serem incorporadas a novos contratos com taxas significativamente mais altas. Em um dos casos acompanhados pelo advogado, uma família do norte gaúcho teria visto o valor devido crescer cerca de 700% ao longo de cinco anos, mesmo sem expansão da área produtiva ou dos investimentos.

O impacto do endividamento vai além dos números. Produtores relatam pressão psicológica, perda de patrimônio, demissões de funcionários e dificuldades até para manter despesas básicas. Entidades do setor alertam que o cenário ameaça a sustentabilidade econômica da produção rural, especialmente entre pequenos agricultores, que dependem do crédito para custeio e sobrevivência.

Representantes do setor defendem a necessidade de revisão das políticas de renegociação, com maior uso de recursos subsidiados, limites mais claros para juros livres e reforço aos mecanismos legais de prorrogação das dívidas em casos de perdas climáticas. Sem ajustes, avaliam, o avanço do estresse financeiro no crédito rural pode comprometer a permanência de milhares de famílias no campo e gerar impactos de longo prazo sobre a produção de alimentos no País.

Fonte: Agro Estadão