A rastreabilidade individual de bovinos tem se consolidado como uma ferramenta estratégica para a pecuária brasileira. Além de atender às exigências de mercados internacionais cada vez mais rigorosos, o sistema vem demonstrando ganhos concretos no controle sanitário dos rebanhos, na gestão das propriedades e na valorização do produto final. No Rio Grande do Sul, produtores e autoridades do setor avançam para se antecipar às metas nacionais de identificação animal.
Ao permitir que cada animal seja identificado e acompanhado ao longo de toda a sua vida produtiva, a rastreabilidade facilita a detecção precoce de doenças, o isolamento de animais contaminados e o controle mais eficiente de surtos. O sistema também assegura maior precisão na aplicação de vacinas e tratamentos, reduzindo riscos sanitários e protegendo a saúde do rebanho como um todo.
Essa realidade faz parte do cotidiano da pecuarista Fernanda Costabeber, de São Sepé, na região central do Estado. Há mais de duas décadas, ela e a família atuam na recria e engorda de bovinos machos, em sistema de Recria e Terminação Intensiva a Pasto (RIP e TIP). Nos últimos dez anos, todos os animais da propriedade passaram a ser rastreados.
Segundo Fernanda, a adoção da rastreabilidade coincidiu com o início do processo de sucessão familiar. “Eu estava trabalhando fora e precisei voltar para ajudar meu pai, porque a rastreabilidade exigia mais controle e acompanhamento. Foi quando o processo se tornou oficial dentro da fazenda”, relata.
O caminho, no entanto, não foi simples. Iniciado ainda nos anos 2000, o processo envolveu burocracia e grande volume de registros manuais. “Era muita planilha para preencher e assinar. Foi cansativo, tivemos que contratar pessoas para ajudar”, lembra. Sem apoio direto dos órgãos públicos naquele momento, a família encontrou nas entidades certificadoras a orientação necessária para implementar o sistema. Apesar das dificuldades iniciais, a decisão foi mantida.
“As vantagens na gestão da fazenda fizeram a gente continuar. Passei a ter controle preciso da origem dos animais, desempenho, mortalidade, tempo de permanência na propriedade. Isso melhorou muito nossos indicadores técnicos”, afirma a produtora.
Valorização e acesso a mercados
Além dos ganhos internos, a rastreabilidade também se refletiu em maior valorização do produto. Fernanda destaca a crescente demanda por animais rastreados, especialmente para exportação. “Voltamos a perceber uma procura maior, principalmente para atender mercados como o da União Europeia”, observa.
Para a diretora do Departamento de Vigilância e Defesa Sanitária Animal da Secretaria da Agricultura, Pecuária, Produção Sustentável e Irrigação (Seapi), Rosane Collares, a carne rastreada transmite confiança ao consumidor e agrega valor, sobretudo em estados com produção mais limitada. “Aqui no Rio Grande do Sul, a rastreabilidade é essencial para qualificar o produto e fortalecer nossa posição no mercado”, explica.
Segundo a gestora, a ampliação do sistema tem sido decisiva para a abertura de novos mercados. Nos últimos dois anos, o Estado recebeu mais de 15 missões internacionais interessadas na condição sanitária de área livre de febre aftosa sem vacinação. “Em todas as visitas, a rastreabilidade foi apontada como um requisito fundamental para viabilizar acordos comerciais”, destaca.
Plano nacional prevê identificação total até 2032
O avanço regional ocorre em sintonia com a política nacional. Em dezembro de 2024, o Ministério da Agricultura e Pecuária lançou o Plano Nacional de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (PNIB), que estabelece a meta de identificar individualmente todo o rebanho brasileiro até 2032. A implantação será gradual: entre 2024 e 2026 será estruturada a base de dados nacional; de 2027 a 2029 começa a identificação em larga escala; e, até 2032, o sistema deve alcançar todos os animais.
O plano foi elaborado com a participação de entidades representativas do setor produtivo e da indústria exportadora. No lançamento, o vice-presidente da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), José Mário Schreiner, destacou que o principal beneficiado será o produtor rural. “A rastreabilidade amplia as possibilidades de controle e transparência, fortalecendo a defesa do produtor brasileiro”, afirmou.
De acordo com Rosane Collares, o Rio Grande do Sul já apresenta avanços em relação ao cronograma nacional. Atualmente, a rastreabilidade individual ocorre de forma mais restrita, especialmente em uma bacia leiteira, mas a expectativa é de ampliação em curto prazo.
Projeto-piloto no Estado
Como parte desse processo, a Secretaria da Agricultura do Estado pretende lançar, até agosto, um edital para selecionar propriedades interessadas em participar de um projeto-piloto gratuito de rastreabilidade. As fazendas escolhidas terão os animais identificados com apoio técnico da Seapi, sem custos diretos para os produtores, que deverão assumir o compromisso de permanência no sistema.
“A ideia é testar o sistema de forma intensiva até o final deste ano. Assim, no início do próximo ano, estaremos prontos para atender produtores que queiram se antecipar e aderir gradualmente”, explica Rosane.
Com a combinação de exigências de mercado, metas nacionais e experiências bem-sucedidas no campo, a rastreabilidade se consolida como um caminho sem volta para a pecuária, unindo sanidade, eficiência produtiva e competitividade.
Fonte: Agro Estadão
